A passada sexta-feira 20 de junho às 15 horas o salão de usos múltiplos do Parque Nacional Lanín em San Martín de los Andes estava repleto.
Após onze anos de dura luta chegava a hora de concretizar o desejado sonho. Aquele idoso galpão de madeira onde era guardada a forragem que deu abrigo aos dois motociclistas aventureiros e curiosos, tornava-se um Museu.
Esse ato de solidariedade de um trabalhador de Parques Nacionais, dom Pedro Olate, com Alberto Granado e Ernesto Guevara de la Serna tinha transcendido na memória daqueles jovens e no espírito dos trabalhadores que protegeram esse lugar desde que Ernesto tornou-se Che. Aquele jovem que pelas suas condições pessoais tinha se tornado um mito mundial, era o destinatário de um museu onde se refletia e transmitia a sua vida, a sua obra e o seu pensamento.
Tudo isso reinava no clima desse salão abarrotado, mais a expectativa dos dirigentes da ATE de todo o país, mais o orgulho dos guarda-parques, mais a ansiedade por ouvir ela, a Dra. Aleida Guevara March, filha de Aleida March (madrinha silenciosa do projeto) e do comandante Guevara.
Começaram os donos da casa, Salvador Vellido e Héctor Spina em representação do Parque Lanín e da Administração de Parques Nacionais e falaram da satisfação de contar com o museu na sua própria casa e do sentido de ser guarda-parques e, a partir desse momento, guarda-museus.
Continuaram os colegas da ATE: primeiro a Turca Soraya Abraham de San Martín de los Andes, emocionada até a medula. Após o secretário geral da ATE Neuquén, o cro. Ernesto Contreras e logo depois Julio Fuentes, adjunto nacional da ATE e alma mater do projeto. Quem lutou o prédio perante todo o mundo para torná-lo um museu em tempos nos quais se augurava o fim das ideologias. “Como disse um poeta argentino na infame década de 30: Quando todo estava perdido, apareceu a coisa popular para nos salvar. Pois bem, durante os anos 90 quando todo parecia perdido, o comandante Che Guevara com as suas idéias e a revolução com o seu exemplo apareceram para nos salvar”.
Depois foi o turno de Pablo Micheli, secretário geral da ATE e adjunto da CTA nacional, quem manifestou o orgulho de que esse museu fosse da ATE e da CTA.
Nora Cortiñas, mãe da Praça da Linha Fundadora, enfraqueceu a todos com a sua só presença, mas também disse que seus filhos, os detidos-desaparecidos, tinham vontade de se assemelhar ao Che. O licenciado Aramís Fuente Hernández, embaixador cubano na Argentina, deu aulas em bom cubano sobre o Che e Marti e felicitou ao povo de San Martín de los Andes por esse foro de transmissão do pensamento revolucionário.
Tudo perante a mirada emocionada dos mapuches, da militância jovem da ATE e da CTA Neuquén, dos colegas da UNE (União dos Neuquinos), dos vizinhos e de umas crianças que não deixavam de brincar.
Até chegou o turno de Aleida e na faixa que abrange seus olhos e seu nariz, a gente podia ver o Che. E podia pressenti-lo nas suas palavras, no seu pensamento e na sua firmeza. A firmeza de uma mulher que teve de despedir o seu pai, disfarçado de outro, quando só tinha 6 anos e não voltou a vê-lo.
Aleida lembrou aquilo que leu na porta de um banheiro na Universidade de Granada: “A revolução não é levada na boca para viver dela senão no coração para morrer por ela” e lembrou a estrofe de uma milonga que utilizou para o remate “Se eu morrer, não chore por mim. Faz aquilo que eu fazia e continuarei a viver em você” . Mas insistiu uma e outra vez que o exemplo do Che tinha que estar presente em cada momento da nossa vida: “no acionar cotidiano” .
Depois todos foram até o museu, virando a esquina. Aqueles da ATE e Carlos Chile (MTL) da mesa nacional da CTA descobriram o enorme cartaz. O embaixador, Norita e Aleida cortaram a fita de entrada rodeados de rapazes. Héctor Méndez, dirigente da ATE, e Darío Fuentes, aqueles que conduziram o projeto, percorreram o museu com os visitantes mostrando os painéis com a sua vida mais a mídia com todas as informações, o filme continuo com as suas imagens, a livraria com todos os sues textos e o anfiteatro para as atividades de verão.
No entanto as pessoas que esperavam fora no frio aqueciam-se com um chocolate quente e espiavam ansiosos pelas janelas de La Pastera.
Alguma coisa aconteceu essa tarde em San Martín de los Andes. Como uma prezada presença. E na história pessoal de cada um dos presentes com o “guerrilheiro heróico”, uma parte de tanta dívida começou a ser paga. Não só por esse dia inesquecível, mas também por cada um dos dias que o museu, o nosso museu, fique aberto irradiando ética, militância, espírito revolucionário, ideologia e, principalmente, entrega absoluta. O legado do Che.
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